quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Salvação

A salvação como base para a doutrina cristã jamais foi ou poderá ser esquecida. Contudo, devo concordar com Stott quando diz em sua obra (Entenda a Bíblia) que "nenhuma outra palavra bíblica tenha sofrido tanto a partir do mau uso e da compreensão equivocada do que é salvação". Sott conceitua a salvação como sendo liberdade e renovação; em última instância, a renovação do universo inteiro e que a salvação seria uma experiência moral.
A partir desses conceitos iniciei uma reflexão e passei a meditar sobre o tema da salvação. A principal pergunta que me veio a mente foi: Se a salvação for associada a uma experiência moral, de forma isolada, não corre-se o risco de anular a função exclusiva e imprescindível da pessoa de Cristo? Pode ser que encontremos pessoas não cristãs com propósitos morais bem definidos, sendo que inclusive ateus podem ser moralmente corretos. Portanto, parece que o conceito de salvação atrelado a um conceito de experiência moral pode não ser suficiente para se compreender a dimensão do que é a salvação em Cristo.
Imagine alguém que possui princípios morais muito bem estabelecidos. O perfil dessa pessoa é composto por valores como verdade, respeito ao próximo, fidelidade conjugal e inclua-se nesse perfil tudo aquilo o que julgamos ser moralmente correto. Essas qualidades seriam suficientes para que tal pessoa fosse considerada salva? Creio que não. Se isso fosse assim, mais uma vez a pessoa de Cristo nesse aspecto seria prescindível.
Pode ser que encontremos pessoas com testemunhos de mudança de vida (algo que se espera num cristão) muito frequentes como abandono de certas práticas que são moralmente incorretas. Mas pense na hipótese daquela pessoa que é moralmente correta. Qual foi a mudança em sua vida para que se declare salva? O aspecto moral dessa pessoa estaria irretocável. Assim, qual seria o testemunho de salvação, uma vez que o seu caráter, seus princípios morais eram retos diante de Deus? Nesse sentido, também cabe a pergunta: alguém que pratica os princípios cristãos pode ser considerado um cristão? 
A transformação ou experiência moral pode ser uma consequência natural da salvação em Cristo, mas não pode, por si só, definir a salvação a não ser que esteja inseparavelmente presa ao conceito de justificação. Parece-me impossível não associar a salvação com a justificação em Cristo. É somente pela justificação em Cristo que podemos ter acesso a salvação e esta, por consequência, nos levar a uma transformação moral.
Por isso, vejo ainda não como uma opinião totalmente formada, que a principal característica da salvação não pode ser a mudança exclusivamente moral. Esse mudança de forma isolada exclui a justificação em Cristo. Contudo, me parece que o sinal irrevogável da salvação seja a consciência do pecado. Muito mais do que uma consciência moral de pecado, mas de uma consciência que leva irresistivelmente ao arrependimento e à certeza de que sem Cristo se está separado de Deus e que somente Ele (Cristo) pode restaurar essa condição. Portanto, podemos encontrar pessoas boas, mas que sem a consciência da separação de Deus pelo pecado, que somente pode ser restaurada em Cristo e pela fé, ainda continuam sem salvação. A salvação então pode ser o reflexo da fé em reconhecer que somente Cristo pode nos aproximar novamente de Deus. Com isso, a experiência moral como mudança de vida torna a prática de princípios cristãos numa consciência racional de vida cristã em Jesus Cristo.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Discussão

Acho que todo mundo conhece o velho ditado: "Futebol e Religião não se discute". Durante algum tempo passei a refletir se isso, de fato, era verdadeiro ou não. No início da construção de uma linha de pensamento, observei que o sentido da palavra discussão tornou-se sinônimo de briga, falar mais alto, entre outras coisas. Mas o que de fato seria uma discussão?
Quando se faz referência ao velho ditado, observa-se também aquilo que de modo bem casual ficou conhecido como sabedoria popular. Não que eu concorde com todo o acervo de tal sabedoria, mas me parece que em certo aspecto, existe algum fundamento. Veja que nesse mundo pós-moderno pouco se dá valor à construção de um conceito. Essa construção pode ser desenvolvida a partir de uma série de ferramentas como leitura, entrevistas, letras musicais e também por uma boa discussão. Aqui a discussão surge quando se quer firmar um conceito, quando se quer refletir para acreditar em alguma coisa. Quando o conceito já está firmado, não cabe qualquer discussão. Talvez seja exatamente por isso que o termo passou a refletir uma condição de confusão.
Pode ser que isso nos pegue de surpresa, mas as diferenças de conceitos não podem fazer parte de qualquer discussão, a não ser que tal conceito esteja susceptível a revisões. Nesse sentido, rever conceitos pode ser extremamente valioso. Assim, me parece óbvio concluir que tudo merece discussão, desde que se esteja aberto a revisões conceituais maduras. A história mostra o quanto isso é importante. Muitas pessoas foram condenadas na história da humanidade porque alguns conceitos, que eram tidos como verdades absolutas, foram revistos por muitas pessoas, essas tais que sofreram as duras consequências da revisão conceitual. O fato é que depois de alguns anos, os conceitos mudaram seja por provas científicas, seja por provas filosóficas.
Se futebol e religião não se discute é porque os conceitos já estão formados. Mas a verdade é que um conceito só pode subsistir se ele passar constantemente pelas provas das revisões. Um conceito formado só pode ser respeitado se ele conseguir resistir a uma boa discussão. Obviamente que alguns valores como a fé por exemplo, limitam essa discussão. Contudo, alguém que defende um conceito jamais poderia ter medo de participar de uma discussão, porque dela surge o conceito melhorado, lapidado e cada vez mais consolidado, ou não.
Diante disso, fica a pergunta: até quando vale a pena torcer pelo Palmeiras e até quando vale a pena ser cristão? Se os conceitos puderem resistir as revisões conceituais valerá a pena. Quanto a torcer pelo Palmeiras não estou certo, mas quanto a ser cristão... que venham as discussões para o meu principal valor ser fortalecido.