O que um sinal diz e o que um símbolo provoca? Paul Tillich aborda em "Teologia da Cultura" a diferença entre um sinal e um símbolo. Tome um sinal comum, por exemplo, uma placa de proibido fumar. Esse aviso pode gerar em quem o vê diferentes pensamentos. Alguns podem relacionar a este sinal a ideia de uma patologia derivada do uso do cigarro, ou de eventuais restrições legais por não ser permitido fumar em determinados locais. Um sinal então é um alerta que não produz necessariamente um tipo de comportamento e que mantem uma relação isolada com quem o vê. O sinal está lá para alertar, mas se um padrão de comportamento será obtido, pouco importa. Ele é inerte ao padrão comportamental.
Já um símbolo é algo diferente. Ele pode representar pessoas ou conceitos. Um símbolo não é a pessoa ou o conceito em si, mas os representa. Ao contrário de um sinal, um símbolo assume uma interdependência com as pessoas. Veja por exemplo o símbolo da paz, conhecido como uma pomba. A pomba propriamente dita não é a paz, mas representa a paz. Nesse sentido, a paz se relaciona com o homem na medida em que o atinge de maneira holística, ou integral. Em última análise, um símbolo deveria produzir ações práticas, necessárias à própria concepção do símbolo. Quando o caminho da prática não acontece, estamos diante de um sinal e não de um símbolo.
É bem verdade que um mesmo padrão de comportamento da sociedade não deve ser tomado como algo imutável. Basta observar a própria evolução da sociedade seja em termos conceituais ou mesmo de padrões comportamentais. A expressão mais clara desse aspecto é a cultura na qual se está inserido. Acompanhando essas mudanças na cultura de cada sociedade é que Tillich propõe que a teologia seja reinterpretada de acordo com as diferentes formas de culturas. Isso não significa que valores embrionários sejam revistos, mas que outros valores atrelados a uma época, ou a circunstâncias históricas não possam ser revistos.
A igreja primitiva experimentou diversas condutas embrionárias para o cristianismo e que não deveriam der mudadas. Contudo, outras questões ao longo dos anos de existência do homem e de cristãos podem e devem ser revistas, sem que o receio de estar propondo heresias anulem essa revisão. Uma vez que não se contraria os princípios que regem o cristianismo não se pode falar em heresias.
Dessa forma, o aspecto do ensino no meio cristão sofreu influências ao longo da história, culminando com aquilo que se concluiu ser a maneira correta de ensinar. A utilização de uma linguagem rebuscada, recheada de terminologias teológicas eram sinônimos de um bom sermão ou de um bom estudo. Some-se a isso o fato de que no Brasil, era essa a exata forma da cultura vigente. Assim, a igreja apenas absorveu essas mudanças culturais, como disse Tillich.
Apesar de essa forma de apresentar o estudo bíblico ter cumprido um papel importante em seu contexto, nos dias de hoje, pela renovação e reinterpretação da cultura, torna-se necessário a criação de novos paradigmas. Obviamente, o que se propõe aqui não é a anulação do caráter profético das escrituras, ou se preferir, exortativo. O que se revela necessário é a contextualização das informações afim que que estas promovam a melhor comunicação com as pessoas.
Durante muitos anos a igreja evangélica vem administrando o ensino bíblico no formato da escola bíblica dominical. Mas a pergunta que se deve fazer com muita responsabilidade no intuito de colher padrões mais eficazes de comunicação, é se esse formato continua sendo o melhor para os dias da pós-modernidade. O caráter do ensino, que se traduz no princípio deve ser imutável, as formas com as quais esse ensino acontece não precisa, bem como não deveria ser imutável. Os responsáveis pelo ensino deveriam buscar outras formas para que o ensino bíblico seja melhor comunicado e, por isso, provoque maior mudança na sociedade.
Sem a reinterpretação das mudanças culturais da sociedade, se produz a estagnação de um princípio fundamental da fé cristã, que é o ensino da bíblia. Perceba que essa afirmação está muito longe de ser considerada uma heresia, porque o seu alvo é a melhoria do ensino e não a sua anulação. As formulações e teorias da comunicação foram revistas pela maior parte da sociedade com novos padrões culturais, mas a igreja insiste em permanecer alheia a essas mudanças. Talvez seja exatamente por isso que o ensino bíblico tenha se tornado um sinal, quando deveria ser um símbolo.
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