quinta-feira, 15 de setembro de 2011
terça-feira, 13 de setembro de 2011
A Lagarta e a Borboleta
por Rodrigo Martins
Era uma daquelas tardes de sol ardente e o frondoso flamboyant convidava para o repouso debaixo de sua refrescante sombra. A lagarta conseguiu se rastejar por quase cinco horas, até que finalmente conseguiu chegar debaixo da revigorante sombra. Mas ficar ali no chão poderia ser muito perigoso, afinal outros animais também poderiam querer desfrutar da mesma sensação de frescor. Um longo caminho, lento e cansativo deveria ser iniciado em direção à copa do flamboyant. Ali, com certeza, a lagarta estaria segura.
Depois de aproximadamente duas horas de subida, a lagarta finalmente chegou no lugar que queria. Na medida em que aproveitava a sombra oferecida pela grande árvore, percebeu que no galho ao lado havia uma bela borboleta. A lagarta passou a observar sua beleza, suas grandes asas e pensou: “se tivesse uma par de asas, conseguiria me locomover com maior rapidez”. Resolveu então ir em direção à borboleta, para tentar conseguir as suas asas.
A lagarta com esforço e se arrastando lentamente, chegou até a borboleta e explicou o quanto a sua vida era difícil. Contou sobre os seus dias de tristeza debaixo do sol escaldante e de como aquilo trazia um sofrimento terrível para ela. Também contou a borboleta que por mais que tentasse, não conseguia mudar de vida, porque só o que conseguia fazer era se rastejar. Contou dos inúmeros perigos pelos quais já havia passado e revelou que já não tinha mais forças para seguir em frente. Finalmente, após todo esse discurso, a lagarta pede a borboleta que lhe empreste as suas asas.
A borboleta, ao ouvir aquele estranho pedido, leva um grande susto e diz que não era possível. As suas asas não serviriam na lagarta. Definitivamente elas não foram projetadas para isso e, certamente poderiam oferecer grande perigo. A lagarta ficou inconformada porque tinha certeza de que aquelas asas seriam a solução para os seus problemas.
A noite começou a cair e logo todos estavam dormindo. Todos, exceto a lagarta. Como era de costume, as borboletas tiravam as suas asas ao deitar. Aproveitando-se disso, a lagarta pegou as asas da borboleta e se preparou para o seu primeiro vôo, aquele que traria alívio ao sofrimento de sua vida. Olhou para baixo do alto da árvore e sentiu medo, mas o seu medo era muito menor do que a vontade de ser feliz. Esperando essa felicidade foi que a lagarta saltou.
Na medida em que caía tentava bater as asas, mas não tinha a habilidade e nem a coordenação motora para isso. Pensou no que a borboleta disse sobre as asas e antes que pudesse concluir que era bem melhor que não as tivesse, se espatifou no chão. Já não tinha forças para se levantar porque estava machucada e ferida em várias partes de seu corpo. Desistindo da própria vida e esperando ser devorada por algum predador, a lagarta ficou ali parada, imóvel, apenas esperando sua morte, o fim de seu sofrimento.
Com os olhos ainda embaçados pela violenta queda, conseguiu enxergar alguma coisa descendo pela árvore. Seria esse o seu libertador? Aquele que iria se encarregar de dar um fim ao seu sofrimento? Qual não foi a sua surpresa quando conseguiu reconhecer que era a borboleta. Quando esperava uma grande bronca, merecidas e infindáveis acusações, a borboleta pega as suas asas, põe a lagarta no colo e a leva de volta à copa do majestoso flamboyant.
Passaram-se muitos dias de cuidados intensos da borboleta com a lagarta. Os seus ferimentos foram limpos com as gotas do orvalho, suas feridas tratadas com o mel que as abelhas ofereceram. Todos os dias a borboleta voava por horas para trazer tudo o que a lagarta precisava para se reestabelecer. Mas ao contrário do que era de se esperar, a lagarta ainda permanecia imersa numa profunda tristeza.
Em uma bela manhã, a borboleta vê que a lagarta está completamente reestabelecida e pergunta se está tudo bem. A lagarta quase não responde. A borboleta então começa a contar uma história para a lagarta.
“Havia um homem que era muito pobre e queria ter roupas novas, pois as suas já estavam bem velhas e cheias de buraco. Mas, devido as suas condições econômicas, não podia comprar a quantidade de tecido necessária para fazer uma nova roupa. Foi aí que ele teve a ideia de comprar uma quantidade de pano, para ao menos remendar os buracos de sua roupa. Sentiu-se muito bem quando finalmente terminou de remendar as suas roupas, mas depois de certo tempo, percebeu que o remendo de tecido novo rasgou o tecido da roupa que era velho. As suas roupas ficaram em piores condições”.
A lagarta não estava entendendo muito bem a razão pela qual a borboleta estava lhe contando aquela história, e enquanto pensava nesse motivo, a borboleta iniciou outra: “ Havia um outro homem que gostava muito de vinhos. Ele tinha uma vasta coleção, mas havia um especial que era de uma excelente safra, bem recente, uma das melhores. Pegou então uma vasilha de couro já antiga e colocou o vinho novo em uma vasilha de couro antiga. Qual não foi a sua surpresa ao ver que no outro dia, o seu vinho mais valioso havia sido todo derramado, pois a vasilha de couro antiga não tinha suportado o vinho novo”.
A borboleta esperou mais alguns dias para que a lagarta pudesse absorver a essência das duas histórias, e no sétimo dia, a lagarta resolveu conversar sobre elas. Ela disse para a borboleta que havia tentado relacionar as duas histórias com o episódio da grande queda, mas que somente conseguia se enxergar como o pano rasgado e o vinho derramado.
Depois de um breve suspiro, a borboleta revela que a lagarta quis fazer a mesma coisa das histórias. Disse à lagarta que ao tentar colocar as suas asas, estava tentando costurar pano novo em roupas velhas e colocar vinho novo em vasilha de couro velha. Também disse que se ela quisesse mudar, era preciso antes compreender o motivo da mudança e somente depois, a mudança realmente aconteceria. Falou que para que essa mudança fosse realmente forte, a ponto de acontecer uma metamorfose, deveria vir de dentro para fora e não ao contrário.
A lagarta começou a pensar muito no que a borboleta havia dito. Pensou, pensou, pensou e pensou mais um pouco. Depois de tanto pensar, decidiu que poderia estar na forma de uma lagarta, mas que teria a mente de uma borboleta. Decidiu que viveria como uma borboleta, mesmo que não tivesse asas. Passou a fazer tudo o que uma borboleta fazia, assumindo uma nova vida, um novo jeito de ver as coisas e, principalmente, um novo jeito de agir com as coisas. A comunidade do flamboyant quase não podia acreditar que aquela borboleta era uma lagarta. Apesar de seu corpo de lagarta, todos a enxergavam como uma borboleta porque o seu interior refletia uma borboleta.
O dia passou e com a noite surgiu uma grande e bonita lua no céu. A lagarta tinha alcançado uma paz que excedia toda a compreensão. Todos se perguntavam como uma lagarta poderia esbanjar tamanha felicidade. De repente, quando todos estavam dormindo, a lagarta começa a sentir um sono profundo e um frio que aumentava cada vez mais. Resolveu então construir um abrigo em si mesma para ficar mais aquecida, uma espécie de casulo. Dormiu, dormiu, dormiu e dormiu mais um pouco. Quando acordou, não se lembrava que estava dentro do casulo e com uma boa espreguiçada saiu de lá.
Havia uma sensação diferente na lagarta. Ela parecia estar se sentido mais leve. Ela pensou que era porque tinha dormido demais. Como estava com muita sede, resolveu descer pela árvore para ir até o riacho beber um pouco de água. No caminho, todos a cumprimentavam e tudo estava absolutamente normal. Ao chegar no rio, olhou o seu reflexo na água e viu que não tinha mais a forma de uma lagarta, mas de uma linda borboleta. Foi aí que terminou de compreender que a mudança começa de dentro, na sua própria vontade em se fazer novo, para que depois e, somente depois, venham o tecido novo e o vinho novo. Nesse exato ponto é que a metamorfose acontece...
Era uma daquelas tardes de sol ardente e o frondoso flamboyant convidava para o repouso debaixo de sua refrescante sombra. A lagarta conseguiu se rastejar por quase cinco horas, até que finalmente conseguiu chegar debaixo da revigorante sombra. Mas ficar ali no chão poderia ser muito perigoso, afinal outros animais também poderiam querer desfrutar da mesma sensação de frescor. Um longo caminho, lento e cansativo deveria ser iniciado em direção à copa do flamboyant. Ali, com certeza, a lagarta estaria segura.
Depois de aproximadamente duas horas de subida, a lagarta finalmente chegou no lugar que queria. Na medida em que aproveitava a sombra oferecida pela grande árvore, percebeu que no galho ao lado havia uma bela borboleta. A lagarta passou a observar sua beleza, suas grandes asas e pensou: “se tivesse uma par de asas, conseguiria me locomover com maior rapidez”. Resolveu então ir em direção à borboleta, para tentar conseguir as suas asas.
A lagarta com esforço e se arrastando lentamente, chegou até a borboleta e explicou o quanto a sua vida era difícil. Contou sobre os seus dias de tristeza debaixo do sol escaldante e de como aquilo trazia um sofrimento terrível para ela. Também contou a borboleta que por mais que tentasse, não conseguia mudar de vida, porque só o que conseguia fazer era se rastejar. Contou dos inúmeros perigos pelos quais já havia passado e revelou que já não tinha mais forças para seguir em frente. Finalmente, após todo esse discurso, a lagarta pede a borboleta que lhe empreste as suas asas.
A borboleta, ao ouvir aquele estranho pedido, leva um grande susto e diz que não era possível. As suas asas não serviriam na lagarta. Definitivamente elas não foram projetadas para isso e, certamente poderiam oferecer grande perigo. A lagarta ficou inconformada porque tinha certeza de que aquelas asas seriam a solução para os seus problemas.
A noite começou a cair e logo todos estavam dormindo. Todos, exceto a lagarta. Como era de costume, as borboletas tiravam as suas asas ao deitar. Aproveitando-se disso, a lagarta pegou as asas da borboleta e se preparou para o seu primeiro vôo, aquele que traria alívio ao sofrimento de sua vida. Olhou para baixo do alto da árvore e sentiu medo, mas o seu medo era muito menor do que a vontade de ser feliz. Esperando essa felicidade foi que a lagarta saltou.
Na medida em que caía tentava bater as asas, mas não tinha a habilidade e nem a coordenação motora para isso. Pensou no que a borboleta disse sobre as asas e antes que pudesse concluir que era bem melhor que não as tivesse, se espatifou no chão. Já não tinha forças para se levantar porque estava machucada e ferida em várias partes de seu corpo. Desistindo da própria vida e esperando ser devorada por algum predador, a lagarta ficou ali parada, imóvel, apenas esperando sua morte, o fim de seu sofrimento.
Com os olhos ainda embaçados pela violenta queda, conseguiu enxergar alguma coisa descendo pela árvore. Seria esse o seu libertador? Aquele que iria se encarregar de dar um fim ao seu sofrimento? Qual não foi a sua surpresa quando conseguiu reconhecer que era a borboleta. Quando esperava uma grande bronca, merecidas e infindáveis acusações, a borboleta pega as suas asas, põe a lagarta no colo e a leva de volta à copa do majestoso flamboyant.
Passaram-se muitos dias de cuidados intensos da borboleta com a lagarta. Os seus ferimentos foram limpos com as gotas do orvalho, suas feridas tratadas com o mel que as abelhas ofereceram. Todos os dias a borboleta voava por horas para trazer tudo o que a lagarta precisava para se reestabelecer. Mas ao contrário do que era de se esperar, a lagarta ainda permanecia imersa numa profunda tristeza.
Em uma bela manhã, a borboleta vê que a lagarta está completamente reestabelecida e pergunta se está tudo bem. A lagarta quase não responde. A borboleta então começa a contar uma história para a lagarta.
“Havia um homem que era muito pobre e queria ter roupas novas, pois as suas já estavam bem velhas e cheias de buraco. Mas, devido as suas condições econômicas, não podia comprar a quantidade de tecido necessária para fazer uma nova roupa. Foi aí que ele teve a ideia de comprar uma quantidade de pano, para ao menos remendar os buracos de sua roupa. Sentiu-se muito bem quando finalmente terminou de remendar as suas roupas, mas depois de certo tempo, percebeu que o remendo de tecido novo rasgou o tecido da roupa que era velho. As suas roupas ficaram em piores condições”.
A lagarta não estava entendendo muito bem a razão pela qual a borboleta estava lhe contando aquela história, e enquanto pensava nesse motivo, a borboleta iniciou outra: “ Havia um outro homem que gostava muito de vinhos. Ele tinha uma vasta coleção, mas havia um especial que era de uma excelente safra, bem recente, uma das melhores. Pegou então uma vasilha de couro já antiga e colocou o vinho novo em uma vasilha de couro antiga. Qual não foi a sua surpresa ao ver que no outro dia, o seu vinho mais valioso havia sido todo derramado, pois a vasilha de couro antiga não tinha suportado o vinho novo”.
A borboleta esperou mais alguns dias para que a lagarta pudesse absorver a essência das duas histórias, e no sétimo dia, a lagarta resolveu conversar sobre elas. Ela disse para a borboleta que havia tentado relacionar as duas histórias com o episódio da grande queda, mas que somente conseguia se enxergar como o pano rasgado e o vinho derramado.
Depois de um breve suspiro, a borboleta revela que a lagarta quis fazer a mesma coisa das histórias. Disse à lagarta que ao tentar colocar as suas asas, estava tentando costurar pano novo em roupas velhas e colocar vinho novo em vasilha de couro velha. Também disse que se ela quisesse mudar, era preciso antes compreender o motivo da mudança e somente depois, a mudança realmente aconteceria. Falou que para que essa mudança fosse realmente forte, a ponto de acontecer uma metamorfose, deveria vir de dentro para fora e não ao contrário.
A lagarta começou a pensar muito no que a borboleta havia dito. Pensou, pensou, pensou e pensou mais um pouco. Depois de tanto pensar, decidiu que poderia estar na forma de uma lagarta, mas que teria a mente de uma borboleta. Decidiu que viveria como uma borboleta, mesmo que não tivesse asas. Passou a fazer tudo o que uma borboleta fazia, assumindo uma nova vida, um novo jeito de ver as coisas e, principalmente, um novo jeito de agir com as coisas. A comunidade do flamboyant quase não podia acreditar que aquela borboleta era uma lagarta. Apesar de seu corpo de lagarta, todos a enxergavam como uma borboleta porque o seu interior refletia uma borboleta.
O dia passou e com a noite surgiu uma grande e bonita lua no céu. A lagarta tinha alcançado uma paz que excedia toda a compreensão. Todos se perguntavam como uma lagarta poderia esbanjar tamanha felicidade. De repente, quando todos estavam dormindo, a lagarta começa a sentir um sono profundo e um frio que aumentava cada vez mais. Resolveu então construir um abrigo em si mesma para ficar mais aquecida, uma espécie de casulo. Dormiu, dormiu, dormiu e dormiu mais um pouco. Quando acordou, não se lembrava que estava dentro do casulo e com uma boa espreguiçada saiu de lá.
Havia uma sensação diferente na lagarta. Ela parecia estar se sentido mais leve. Ela pensou que era porque tinha dormido demais. Como estava com muita sede, resolveu descer pela árvore para ir até o riacho beber um pouco de água. No caminho, todos a cumprimentavam e tudo estava absolutamente normal. Ao chegar no rio, olhou o seu reflexo na água e viu que não tinha mais a forma de uma lagarta, mas de uma linda borboleta. Foi aí que terminou de compreender que a mudança começa de dentro, na sua própria vontade em se fazer novo, para que depois e, somente depois, venham o tecido novo e o vinho novo. Nesse exato ponto é que a metamorfose acontece...
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